Desde o século XIX, quando era exaltado como produto mais avançado e agente promotor da civilização, o Estado surgia como tema privilegiado entre os que tomaram para si a tarefa de contar a História dos novos regimes representativos e constitucionais. O mesmo valia para a nação que, com características específicas nos territórios de origem colonial, aparecia como fundamental na reconstrução dos vínculos de pertencimento dos indivíduos entre si, bem como de um passado comum. Não por menos, essa época ficou conhecida como de criação das nacionalidades modernas e, nos termos do constitucionalismo, da emergência dos indivíduos enquanto cidadãos, do império das leis, da construção de burocracias racionais, da regulação pública dos contratos e da liberação dos mecanismos de mercado dos controles estatais. No entanto, muitas dessas questões mergulhavam suas raízes em transformações ocorridas, pelo menos, um século antes, quando o mundo ocidental vivera uma crise nos seus paradigmas políticos, sociais e culturais que se revelava na concepção de que a herança do passado – a partir de então, identificado com algo antigo - deveria ser destruída ou, no mínimo, reformulada.

Estado, nação, bem como a entidade política que se formava a partir da convergência dessas duas esferas têm sido, desde então, objeto de diversas controvérsias, que vão desde sua valorização como categorias explicativas fundamentais para as ciências humanas até sua completa negação enquanto fórmulas ultrapassadas de se pensar as sociedades. Recentemente, ambos têm sido recolocados em questão, diante das profundas transformações políticas e sociais que anunciam outra crise, a do modelo do Estado-nação, no contexto da chamada globalização. Uma série de fatores tem contribuído para rediscutir as atribuições e o caráter que a historiografia tradicionalmente associou ao Estado: a criação de novos Estados nacionais no leste europeu, após queda do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética, suscitando autonomias regionais e o surgimento de identidades nacionais de base étnica; o processo de globalização e de constituição de organismos supranacionais (o Parlamento Europeu, a União Européia), esvaziando a centralidade do Estado como agente de ação política e fonte de direitos, e modificando, pela superação parcial das fronteiras, as identidades nacionais; o recrudescimento dos movimentos de minorias sociais, sobretudo de negros, mulheres e homossexuais, promovendo a criação de identidades segmentadas, baseadas em etnias, gêneros e opções sexuais, entre outras, reivindicando o direito e o respeito às diferenças culturais; o agravamento das desigualdades sociais e a falência do estado de bem-estar social, fazendo de alguns direitos (emprego, educação, saúde) um quase privilégio; por fim, o processo de redemocratização nos países da América Latina, inclusive o Brasil, enfatizando o papel da sociedade civil como espaço de ação política, quase que em oposição ao Estado.

Neste contexto é que se observa o surgimento no Brasil, na primeira década do século XXI, de duas grandes iniciativas acadêmicas paralelas – cada qual envolvendo pesquisadores de diferentes universidades nacionais e internacionais – destinadas a investigar, à luz de novas perspectivas de análise, os processos correlatos de construção e desenvolvimento do Estado e da nação no Brasil. A primeira delas foi originada no âmbito do Centro de Estudos do Oitocentos (CEO) que resultou, até o momento, em três sucessivos projetos financiados pelo PRONEX / CNPq – FAPERJ: Nação e cidadania no Império: novos horizontes (2003-2006), Dimensões da cidadania no século XIX (2006-2009) e, atualmente, Dimensões e fronteiras do Estado brasileiro no século XIX (2009-2012); os dois primeiros sob a coordenação de José Murilo de Carvalho (UFRJ) e o terceiro de Lúcia Bastos Pereira das Neves (UERJ). A segunda foi levada a cabo por pesquisadores reunidos em torno do Projeto Temático Formação do Estado e da nação: Brasil, c.1780-c.1850 sob a direção de István Jancsó (USP, in memoriam), que contou com apoio concedido pela FAPESP, entre os anos de 2005-2009, e foi sediado no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Ela produziu, entre 2005 e 2010, a Revista Almanack Braziliense (www.almanack.usp.br ). Voltada à publicação de estudos sobre a história do Brasil e da América portuguesa nos séculos XVIII e XIX, e enfocando o processo de formação do Estado e da nação no Brasil em suas dimensões internas bem como em suas interfaces com o mundo hispânico e a conjuntura mundial, a revista publicou 11 números semestrais, consolidando-se como referência acadêmica na área.

O fecundo diálogo acadêmico desenvolvido por esses dois projetos ao longo dos anos suscitou a parceria que agora se materializa em uma nova revista - Almanack – sediada na Universidade Federal de São Paulo. Os pesquisadores envolvidos nessa empreitada estão vinculados a várias instituições - em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo: UNIFESP, USP, UFF, UNIRIO, UERJ, UFJF, UFOP, UFES, UFRJ, UFSJ, UFRRJ e PUC-RJ, além de contarmos com o apoio da Brasiliana USP. Trata-se de experiência interinstitucional inovadora e promissora, que deverá contribuir para alargar ainda mais a interlocução, divulgação de trabalhos e compreensão crítica acerca do período enfocado.

Ela buscará condensar aquilo que, a despeito das naturais e saudáveis diferenças que caracterizam os pesquisadores nela envolvidos, representa a grande convergência que os liga a este projeto comum: o intuito de revisitar, sob novos olhares, o tema da formação do Estado e da nação brasileiros, pensados como construções históricas e como espaços de disputas, negociações, conflitos e anseios diversos, de modo a enredar, como em um mosaico de projetos e identidades, múltiplas esferas ou circunscrições (políticas, burocráticas, geográficas, sociais, culturais e econômicas).

Deixando de ser braziliense, tendo nova sede (a UNIFESP) e novo registro, a Almanack continua a mesma, no entanto, no tocante à sua linha editorial. O mesmo vale para suas seções, sendo preservado igualmente seu espaço por excelência de debate acadêmico: o Fórum. Trata-se de uma seção formada por três artigos originários de evento semestralmente realizado pela revista, onde um expositor de renome internacional é convidado a apresentar um texto inédito, criticado por dois outros convidados, cujos textos são publicados no número seguinte. Diferencial em relação às outras revistas, o Fórum é um espaço de discussão, crítica aberta e apresentação do que há de mais atual em relação às pesquisas na área. Além dos demais artigos e das resenhas – todos igualmente inéditos -, a Revista também mantém a seção de Periódicos em Revista, onde estão indexados artigos referentes à sua temática publicados em outras revistas.

Mais uma novidade é o formato da Revista, produzida agora em software livre para produção de periódicos eletrônicos (OJS), que garante melhores condições de navegação e busca, além de reforçar aquilo que para os pesquisadores nela envolvidos sempre foi uma questão crucial: a construção de um periódico de acesso totalmente livre e gratuito, condições fundamentais para que tenhamos vida longa.